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O primeiro herói olímpico do Brasil

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Por Ana Miragaya e Lamartine DaCosta


Em junho de 2025 comemoramos os 120 anos da outorga do Diploma de Mérito Olímpico a Alberto Santos=Dumont. Dessa forma, o pai da aviação e patrono da Força Aérea Brasileira foi o primeiro herói olímpico do Brasil.

Sim, Alberto Santos=Dumont* foi agraciado com um dos primeiros Diplomas Olímpicos outorgados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), durante o Congresso Olímpico de Bruxelas, de 9 a 14 de junho de 1905. Qual a razão dessa honraria? A história de Alberto Santos=Dumont esportista não é muito conhecida. É uma história bastante interessante, que convidamos você a conhecê-la, a começar pelo Diploma Olímpico, representado abaixo, e noticiado no jornal Correio Paulistano, apresentado a seguir.


Diploma Olímpico outorgado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), presidido à época por seu fundador, o barão francês Pierre de Coubertin (1863-1937), a Alberto Santos=Dumont*, em 1905, durante o Congresso Olímpico, na Bélgica, por seus feitos no nascente esporte da aviação. 

*Alberto Santos=Dumont adotou o sinal de igual em seu nome para significar que sua ascendência francesa se equiparava à sua ascendência portuguesa e brasileira.

 


O jornal “Correio Paulistano”, de São Paulo, com data de 21 de junho de 1905, acima, apresenta notícia sobre a concessão do Diploma Olímpico a Santos=Dumont pelo Congresso do COI em Bruxelas. Entretanto, Santos=Dumont não compareceu à cerimônia, fazendo-se representar por seu amigo, o embaixador do Brasil na Bélgica.


Na realidade, a outorga do Diploma Olímpico a Santos=Dumont pelo barão francês Pierre de Coubertin (1873-1937), fundador e presidente do COI (1894), foi um ato de reconhecimento pelo que nosso herói representou para a aerostação, o nascente esporte da aviação, e para o esporte em geral. A aerostação é atividade ligada aos aeróstatos, ou seja, aeronaves mais leves que o ar: inicialmente os balões e, logo em seguida, os dirigíveis. A aviação abrange aeronaves mais pesadas que o ar, como o 14 BIS, de Santos=Dumont, em 1906, o primeiro avião do mundo. 

É preciso então lembrar a trajetória de Santos=Dumont, a quem Pierre de Coubertin, também residente em Paris, contemporâneo de Santos=Dumont, julgou merecedor não somente por suas qualidades como sportsman da aerostação, mas também, e especialmente, por suas atitudes em competições esportivas e na sua vida em sociedade. 

Santos=Dumont valorizava a vitória pelo seu próprio esforço, aceitava suas derrotas, especialmente quando tinha acidentes e quando as experiências não davam certo, pautava-se pela ética para atingir seus objetivos, mirava a excelência, tinha persistência para ir em frente com determinação e coragem, além de praticar e incentivar o'entendimento entre as pessoas, a solidariedade, a amizade e o fair play, características do Espírito Olímpico.


Pontos essenciais de Santos=Dumont como esportista olímpico:


1. Amadorismo: Santos=Dumont verdadeiramente preenchia os requisitos de um esportista amador, que não vivia dos prêmios que recebia e muito menos quis patentear suas invenções. O jovem Alberto herdou uma fortuna de seu pai com sua emancipação aos 18 anos de idade, investindo os valores e deles vivendo, sem precisar trabalhar.Santos=Dumont se coloca bem claramente, em seu primeiro livro, como amador, aquele que pratica o esporte pelo esporte, referindo-se sempre aos outros aeronautas como profissionais. Lembrando que o COI valorizava e cultivava o esporte amador naquela época. 

 

2. Sportsman. O próprio Santos=Dumont se considerava um sportsman, da Belle Époque (1890-1914) na Europa. É importante lembrar que a palavra sportsman, ou esportista, em português, significava no final do século XIX e início do século XX um indivíduo que praticava e se dedicava a um esporte mostrando respeito e igualdade com relação aos adversários, praticante do fair play. Era muito chique ser um sportsman, especialmente se pertencesse a um clube.

 

3. Associação com clubes. Os clubes esportivos constituíram apoios importantes para Santos=Dumont, primeiramente como legitimadores de seus feitos aeronáuticos e, posteriormente, como meio de relacionamento na sua vida social e esportiva. O Aero Club de France, cofundado pelo próprio Santos=Dumont, em 1898, e o Aero Club do Reino Unido mantiveram vínculos bem próximos e constantes com o aviador esportivo brasileiro durante sua fase de grandes realizações (primeira década de 1900). 

 

4. Praticante de esportes. Santos=Dumont praticou inúmeros esportes, desde a infância, como equitação, esqui, ciclismo, tênis, entre outros, além de incentivar as pessoas a praticarem esportes.

 

Automobilismo: encantado com a tecnologia e inovações de sua época, Santos=Dumont desenvolveu paixão pelos automóveis e com eles disputou muitas provas. Aliás, o Santos=Dumont foi a primeira pessoa a trazer um carro para o Brasil. Santos=Dumont participou da corrida Nice - La Tourbie em 1899, cerca de 17km. Essas corridas contribuíram para o aperfeiçoamento dos motores movidos a petróleo. Santos=Dumont ficou em 3º lugar, já participando de corridas internacionais de automóveis. Assim sendo, conclui-se que Alberto Santos=Dumont foi não somente o 1º piloto automobilista brasileiro, mas também o 1º piloto brasileiro a participar do que chamamos hoje de pódio, com medalha de bronze numa corrida automobilística internacional. 

 

Motociclismo: em 1898 Santos=Dumont comprou um motociclo, passando também a se dedicar às competições de motos triciclos, que haviam virado moda em Paris. O próprio Santos=Dumont instituiu corridas com prêmios oferecidos por ele mesmo, inclusive alugando o velódromo Parc des Princes para um torneio numa tarde de domingo, que segundo ele próprio foi um sucesso. Suas observações e experiências com motores, que vinham de sua infância, mexendo nas máquinas da fazenda de café de seu pai, em Ribeirão Preto, ele se tornou exímio mecânico e extraordinário ouvinte dos barulhos dessas máquinas. O conhecimento adquirido através do estudo e manejo da mecânica dos automóveis e das motos triciclos foi essencial para Santos=Dumont construir suas aeronaves. Santos=Dumont tinha o perfil de competidor, participando  de concursos, prêmios e torneios, e também  instituindo eventos a partir de seus próprios recursos.

  

Aerostação: Tornando-se aficionado à tecnologia e à inovação, ao automobilismo e motociclismo, aos poucos Santos=Dumont foi desenvolvendo a aerostação. Aconstrução inicialmente de balões e depois de dirigíveis foi tomando cada vez mais espaço na agenda de nosso piloto, que foi se inscrevendo e participando de competições que ofereciam prêmios, como ocorre nos esportes de uma maneira geral. Seu interesse pelas provas e desafios da aerostação era tão grande que, em outubro de 1898, Santos=Dumont ajudou a fundar o Aeroclube de França (AeCF) como uma associação, cujo objetivo principal era incentivar a locomoção aérea. Com organização e planejamento de competições, o Aeroclube difundia o esporte aerostação tanto que, em 1900, já contava com 400 membros. Várias competições foram instituídas. A primeira delas foi a Taça dos Aeronautas, em 1899, para balões livres. Santos=Dumont se inscreveu e participou, tirando o 4º lugar numa prova de percurso com o balão esférico América (L’Amerique), descendo no Jardim des Tuileries, que ficava a 325 km do ponto de partida. Com o mesmo balão tirou o 1º lugar em tempo de permanência no ar: 22 horas. Esse feito fez com que seu nome aparecesse na imprensa internacional, tendo cada uma de suas conquistas sendo noticiada, comentada e documentada, com a imprensa esportiva francesa destacando a aerostação com um esporte. 

 

5. A torcida. É necessário lembrar que a vitória e o prêmio fazem parte do esporte da mesma forma que a torcida. E a torcida de nosso herói era o povo, como ele menciona em seus livros. A plateia com muitos espectadores estava sempre presente nas demonstrações de Santos=Dumont. Ele avisava aos jornais do dia e hora em que faria demonstrações e que participaria de competições. Até a princesa Isabel fazia parte da torcida de Santos=Dumont, tendo dado a ele uma medalha de São Benedito, protetor de acidentes, por conta da queda do nº 5  numa árvore próximo ao palácio de sua residência, em julho de 1901.

 

6. A vitória. A felicidade com que Santos=Dumont vivenciava suas sucessivas vitórias em seus experimentos com certeza traduz o sentimento dos vitoriosos do esporte, do heroi que luta pela vitória. O esporte exige competição e “grande honra ao vencedor”. Isso seduzia Santos=Dumont imensamente, Por outro lado, as derrotas, os acidentes causados por seus experimentos, não abalavam seu espírito esportivo. Ele se levantava e ia em frente, para a próxima tentativa. 

 

7. O risco. Para nosso herói olímpico, o esporte implicava situações de risco e de perigo. Na realidade, o esporte lida com a adrenalina dos esportistas. Não existe competição sem riscos e Santos=Dumont sabia muito bem disso. Dessa forma, hoje, podemos supor que a aerostação era, no final do século XIX e início do século XX, um esporte radical, o que torna Santos=Dumont o primeiro esportista radical brasileiro.Essencial mencionar que na maior parte das vezes Santos=Dumont saía ileso dos acidentes para tentar as provas novamente, sendo bastante admirado por sua coragem, ousadia, perseverança e genialidade. 


8. Fair play. Como competidor, ele sempre visava o fair play, ou seja, que todos competissem dentro das mesmas condições. Nosso herói era um portador de valores, o que chamava bastante a atenção de jornalistas, do público em geral, da elite europeia, dos aeronautas profissionais e de autoridades. Levando-se em conta o ideário olímpico, as atitudes de Santos=Dumont se coadunavam com a tradição inglesa que se estendeu ao continente europeu. Por esta razão Pierre de Coubertin aduziu à expressão um sentido de espírito, de ética e de exemplo, dentro do figurino histórico olímpico. 

 

9. Registros. Santos=Dumont vivenciou a aerostação/aviação como prática de esporte amador sempre buscando legitimar os recordes de suas performances com audiência pública, árbitros e resultados mensuráveis. A presença de público é uma constante nos esportes. Santos=Dumont era extremamente conhecido por seus feitos em Paris, especialmente, mas em toda a França, na Europa e em outras partes do mundo.

 

10. Estilo e marketing pessoal. Nosso herói brasileiro ditava moda de roupas(colarinhos altos, ternos risca de giz, chapéu amassado e sem abas), tinha estilo próprio (cabelo repartido ao meio) e criava objetos para a prática da aviação como esporte, todos originais. Destacam-se o chapéu panamá, seu símbolo inconteste, e o relógio de pulso encomendado, em 1904, originalmente, por ele, à Maison Cartier de Paris. O design esportivo, a marca “Santos Dumont” e sua comercialização sobrevivem há mais de 120 anos. No início do século XX os homens usavam o elegante relógio de bolso, que causava dificuldades aos pilotos de aeronaves. Santos=Dumont pediu então a seu amigo, Louis Cartier para desenvolver um relógio mais prático, que ficasse amarrado no punho. Foi então criado o primeiro relógio de pulso masculino, que recebeu o nome de Santos, em homenagem a Santos=Dumont. É importante lembrar que naquela época os relógios eram tratados como joias e objetos de arte.

 

11. A imprensa como parceira. Santos=Dumont aparece com bastante destaque em revistas especializadas em esportes e publicadas em Paris no final do século XIX e início do XX, como “La Vie au Grand Air” e “Le Sport Universel Illustré”, tornando-se muito famoso. Estas publicações registraram detalhadamente as conquistas de Santos=Dumont, sempre relacionadas ao mundo esportivo em Paris e na França. Sua visibilidade o tornou uma celebridade, e ele sabia disso, tanto é que se utilizava dela para a promoção de seu esporte predileto: a aerostação/aviação. Como um esportista modelo, ele queria publicidade para seus feitos e nisso a  imprensa esportiva da época tornou-se sua parceira, como ele mesmo menciona em seus livros.

 

12. Rede de contatos. Ao longo de sua carreira, Santos=Dumont construiu uma poderosa rede de contatos. Ele conheceu e conviveu com a elite parisiense e grandes personagens da história, como a princesa Isabel, os inventores americanos Thomas Edison e Graham Bell, além do presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt. Seu hangar, aliás, também inventado por ele, recebia visitas de amigos como Louis Cartier, personalidades como o rei da Bélgica, Leopoldo II; a imperatriz Eugênia, viúva de Napoleão III; Afonso XIII, o rei da Espanha;  além de curiosos  e o povo em geral. 

 

13. Escritor. O livro escrito por Santos=Dumont, “Dans l’Air”, em francês, e publicado em 1904, tornou-o ainda mais conhecido na França, e em Paris, onde morava. Nessa obra ele se dirige à aerostação como esporte. 

 

Em suma, o Santos–Dumont “olímpico” como figura pública realmente existiu por suas atitudes de gentleman e comportamento de fair play, como um sportsman, sua ligação com clubes esportivos e sua devoção à causa popular pela prática de esportes. É possível então inferir que Santos-Dumont muito contribuiu para o legado intangível relacionado aos valores esportivos de sua época e que não foram cultivados ao longo dos anos e das sucessivas edições dos Jogos Olímpicos da mesma forma em que foi “esquecido” pelos historiadores enquanto sportsman e cultor do Esporte para Todos.


ANEXO

 

Santos=Dumont não compareceu à cerimônia de entrega de seu Diploma Olímpico em Bruxelas, em 1905, que foi entregue a seu amigo, o embaixador do Brasil na Bélgica. Não houve interação entre Alberto Santos=Dumont e Pierre de Coubertin.  Por não haver acontecido essa oportunidade de convivência entre os dois protagonistas, a Comissão Organizadora do lançamento do livro “Santos=Dumont, Aviador Esportista: o Primeiro Herói Olímpico do Brasil” convidou os descendentes mais diretos de Pierre de Coubertin e de Alberto Santos=Dumont, através do Comitê Internacional Pierre de Coubertin, Comitê Olímpico Internacional e da Força Aérea Brasileira, os sobrinhos bisnetos, Yvan de Coubertin e Alberto Dodsworth Wanderley, para a cerimônia que ocorreu no Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica no dia 4 de agosto de 2016, às vésperas da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos Rio-2016. Nessa oportunidade, o sobrinho-bisneto de Coubertin deu ao sobrinho-bisneto de Santos=Dumont uma placa de prata em comemoração a esse encontro histórico.



FOTO: Sobrinho bisneto de Pierre de Coubertin, Yvan de Coubertin, entregando a placa ao sobrinho bisneto de Santos=Dumont, Alberto Dodsworth Wanderley,  em cerimônia de lançamento em 4 de agosto de 2016.

Fonte: Acervo pessoal.



Foto: Placa de prata entregue ao sobrinho-bisneto de Alberto Santos=Dumont pelo sobrinho-bisneto de Pierre de Coubertin, Yvan de Coubertin, com os dizeres: “O Comitê Internacional Pierre de Coubertin por ocasião dos Jogos Olímpicos Rio 2016, reverencia o primeiro heroi olímpico brasileiro Alberto Santos Dumont, esportista e aeronauta, agraciado com o Diploma Olímpico Internacional, pelo COI, em 1905, e saúda o Comando da Aeronáutica como guardião desta memória.” Rio de Janeiro, 4 de agosto de 2016 Fonte: Acervo pessoal.





 
 
 

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