O basquete como ferramenta de transformação social nas comunidades cariocas
- bruxellasproducoes
- 25 de mar.
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O Rio de Janeiro é o segundo estado com o maior número de favelas, atrás apenas de São Paulo. Ao todo, segundo o último censo, o território fluminense conta com 1.724 favelas. Inseridos nessas comunidades, cada vez mais jovens, principalmente do sexo masculino, acabam sendo cooptados pelo tráfico de drogas e envolvidos em conflitos armados que resultam em mortes. Na Fazenda Botafogo, conjunto habitacional cercado por favelas na Zona Norte da cidade, a tensão entre diferentes facções criminosas aterroriza os moradores do bairro. O mesmo acontece na Cidade de Deus, que já foi considerada uma das regiões mais perigosas da cidade. Nos dois bairros, um esporte tem funcionado como instrumento de transformação social: o basquete.
Projetos sociais encabeçados por apaixonados pelo esporte estão retirando jovens da vulnerabilidade e oferecendo oportunidades de um futuro melhor. O “Fabulosos”, na Fazenda Botafogo, e o "Basquete CDD", na Cidade de Deus, têm se tornado referências não só na formação de novos talentos como, também, na promoção de mudanças significativas na vida de crianças e adolescentes.
Projeto Fabulosos: uma iniciativa que ganhou vida na Fazenda Botafogo
Lucas Bastos, de 19 anos, é um dos grandes nomes por trás do "Fabulosos”, um projeto que nasceu do sonho do pai, Jorge Ricardo, que trabalha como porteiro em um prédio na zona sul do Rio de Janeiro. Como queria que o filho crescesse longe das drogas e da ilegalidade, aos 12 anos começou a ensinar a ele os fundamentos técnicos do basquete na quadra do conjunto habitacional onde vive. Dois anos depois, ao ver que Lucas levava jeito, decidiu contratar o treinador Tony Boys para ajudá-lo a desenvolver as habilidades.
O impacto dos treinos de Lucas chamou a atenção dos vizinhos, e logo outras crianças passaram a se interessar pelo esporte. Em 2021, após a pandemia, o projeto se consolidou como um programa social esportivo, contando com o apoio do primo Daniel Ventura e de ex-jogadores da comunidade, como o Rafael, mais conhecido como Fael, que se disponibilizaram como voluntários. Atualmente, as aulas acontecem às terças e quintas, das 16h30 às 18h, na mesma quadra onde tudo começou.

Apesar do reconhecimento crescente, o Projeto Fabulosos ainda enfrenta desafios. Sem patrocínio ou apoio financeiro, muitas vezes os custos com materiais e inscrições em campeonatos são cobertos pelos próprios organizadores. Ainda assim, o projeto se tornou um celeiro de talentos e, em 2024, participou pela primeira vez da Liga MC, um importante torneio do Rio de Janeiro. Até o momento, 13 atletas do projeto já foram federados e muitos conquistaram bolsas de estudo, consolidando o vínculo entre esporte e educação.
Lucas, que hoje joga no Fluminense e cursa Educação Física, acredita que o basquete pode mudar vidas, assim como mudou a dele. Ele destaca a necessidade de uma maior visibilidade para o esporte e, também, a importância da renovação no basquete feminino citando iniciativas como o projeto Soudiê Mesquita, na Baixada Fluminense, que formou uma equipe feminina e colocou a cidade de Mesquita no cenário do basquetebol estadual e nacional.

Basquete CDD: Uma Jornada de 15 Anos de Dedicação
Na Cidade de Deus, Henrique Andrade, de 58 anos, lidera há 15 anos o projeto Basquete CDD, que começou quase por acaso. Sua filha já praticava o esporte e precisava treinar fora do horário das aulas, o que acabou levando Henrique à quadra da comunidade. Os treinos individuais da filha atraíram outras crianças e a demanda crescente levou a criação de uma estrutura mais formal, que atualmente conta com três professores voluntários e o apoio das famílias dos alunos.
O projeto, que atende a cerca de 80 crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos, não tem patrocínio. Os custos são cobertos pelos próprios organizadores, com o apoio de campanhas como a do "Tênis Solidário", que arrecada calçados esportivos para os alunos. Como no projeto da Fazenda Botafogo, as aulas na Cidade de Deus acontecem duas vezes por semana na parte da tarde. Recentemente a equipe feminina ganhou mais um dia para aulas de reforço.

O impacto social do Basquete CDD vai além das quadras. Henrique relata mudanças significativas no comportamento dos alunos, que aprendem disciplina, respeito e convivência em grupo. Muitos atletas já foram federados e recrutados por clubes renomados como Fluminense, Vasco e Tijuca. Um dos maiores exemplos de sucesso é Thamires Andrade, ex-aluna do projeto, que estuda nos Estados Unidos com bolsa e, paralelamente, atua como coach.

Desafios e Perspectivas para o Basquete Nacional
Ambos os projetos evidenciam o potencial de jovens jogadores e a necessidade de um investimento maior para valorização do basquete, especialmente do feminino. Henrique acredita que a renovação da base é essencial para fortalecer o esporte e espera que as jogadoras que hoje brilham no exterior retornem para reforçar a seleção brasileira.
No masculino, há um crescimento notável, com atletas como Iago Matheus, que joga na Alemanha e é visto como a cara da seleção brasileira. No entanto, Lucas observa que, apesar de termos talentos atuando no exterior, os resultados da seleção ainda não refletem esse potencial. Ele acredita que o Brasil está em um processo de construção e que, com investimentos estruturais, o país poderá atingir um nível mais competitivo internacionalmente.
Projetos como o Fabulosos e o Basquete CDD são provas vivas do poder do esporte como ferramenta de transformação. Mais do que formar atletas, essas iniciativas oferecem oportunidades, promovem a educação e constroem futuros promissores para os jovens das comunidades cariocas.
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