G.O.L.F - Gentlemen only, Ladies Forbidden?
- bruxellasproducoes
- 21 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de mar.
A. L. Grimm
A primeira vez que ela jogou no Brasil foi no Gávea Golf Club. O mar recortava o horizonte, as palmeiras desenhavam o pôr do sol sobre o lago. O prazer de um backswing, uma breve pausa do mundo. Um drive a 200 yards, bem longe das telas, das agendas lotadas, dos compromissos globais. Foi ali que ela percebeu que o golfe não era apenas uma série de par points no canal The Players, mas um jogo de personagens femininos, de histórias que se criam, se recriam e fazem acontecer.
Historicamente, o golfe sempre foi um esporte masculino. A sigla G.O.L.F. — Gentlemen Only, Ladies Forbidden — já foi até interpretada ao pé das quatro letras. Um jogo para cavalheiros, reservado aos homens que dominavam os campos e as regras. Mas, aos poucos, as mulheres foram entrando no tee com a mesma confiança. Hoje, elas não apenas jogam: organizam, lideram, patrocinam e reinventam o esporte.
Ainda assim, representam apenas 15% dos jogadores. A relação entre a mulher e o golfe é recente e sutil. Mas elas chegam devagar, sem alarde, sem pressa. As coreanas, pop stars jovens; as americanas, feministas duras; as brasileiras, com o jeito carioca de ser. Elas reescrevem as regras do jogo, não como uma concessão, mas como um direito conquistado.
E, no entanto, o golfe é um dos poucos esportes onde casais podem competir de igual para igual, sem vantagens físicas determinantes. Onde a família joga junta. Um esporte quase perfeito para viagens, para casais e amigas nos ventos dos percursos ao redor do mundo. O campo não discrimina força, mas sim estratégia, precisão e paciência — atributos que não têm gênero.
No Itanhangá, o frescor da Mata Atlântica inspira aventura entre bunkers e fairways. Em Búzios, as ondas batem e os ventos levantam as saias plissadas e levam as bolas perdidas. Em Trancoso, entre competições e música, os approaches soam bem, beirando a falésia, com toques femininos e brisa salgada. Sem guerras de gênero — apenas jogo.
E o que dizer de dona Goldinha? Aos 94 anos, ela tem prioridade no tee e joga onde quiser, até no campo olímpico, entre o calor e os crocodilos. Porque no golfe não há idade para começar — nem para terminar. Não há necessidade de suar a camisa ou correr. Basta entrar no tee com estilo, estratégia e talento.

No club house, os almoços deixaram para trás o “bar à cigar”. Agora, a art de la table se mistura às taças de vinho, às conversas sobre prêmios na Europa e no Caribe. O golfe, que já foi símbolo de exclusão, hoje reflete evolução e superação. E não sei por quê, mas os golfistas são addicted: as explicações científicas, os clubes luxuosos, as distâncias em yards, os cálculos matemáticos podem durar até cinco horas.
Ele viaja para jogar. Ela joga para viajar. A cada férias, novos campos, novas 18 paisagens, novas experiências a dois, entre amigos, novos desafios. Um novo jeito de recriar a vida.
Ela volta ao Gávea para o torneio Dona Flor e Seus Dois Maridos. Se antes estavam ali apenas como “mulheres de fulano ou sicrano” — ou do Jorge Amado —, hoje fazem parte integrante deste campo festivo, com naturalidade.

A bola rolou suavemente pelo green, encontrou o buraco e desapareceu. Ela sorriu, satisfeita, sem pressa. Sabia que o jogo continuaria. Que haveria novos campos, novas tacadas, novos destinos.
No golfe, como na vida, nem sempre se acerta de primeira. Às vezes, a bola cai no bunker e recomeça no green. Ela ajusta a postura no tee, respira fundo e, com um swing refinado, lança a bola pelo fairway, sentindo que o golfe pode mudar e equilibrar as vidas das mulheres — no verão, na primavera. Das mulheres que se apaixonam pela bolinha para bater um bolão.
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